terça-feira, setembro 28, 2004


steeple

A passageira

Vivendo dividida e fragmentada,
Evadiste-te de ti mesmo,
Construindo aridez no teu trilho.
Cada passo conduzido por medo interior,
Silenciosamente alimentando a covarde em ti,
A dor que infliges é a sua ração.

“Hipnotizada”, a tua mãe diz,
“Perdida em emoções”, amigos murmuram,
Temendo beijar os lábios da realidade,
Conscientemente condescendendo com biltres,

Governando o reino da ambiguidade,
Em ti nenhuma vontade e nenhuma direcção.
Uma desorientada passageira da vida.
Não olhes para trás, desfruta da excursão…

M. Daedalus

domingo, setembro 26, 2004


wyden

Sometimes Always

I gave you all I had
I gave you good and bad
I gave but you just threw it back

I won't get on my knees
Don't make me do that please
I've been away but now I'm back

Don't be too sure of that
What makes you sure of that
You went away you can't come back

I walked away from you
I hurt you through and through
Aw honey give me one more chance

Aw you're a lucky son
Lucky son of a gun
You went away, you went away
You went away but now you're back

I got down on my knees
And then I begged you please
I always knew you'd take me back...

Jesus and Mary Chain & Mazzy Star

quinta-feira, setembro 09, 2004


persephone

Ao meu egoísmo

A morte é um alívio,
Um orgulho somente meu.
Duma vida pessimista,
Vida que já morreu.

Vejo com felicidade
A luz que no fim espero.
E da tristeza já livre,
A morte agora eu quero.

A luz do fogo apaga
Num sopro que não tem volta.
A vida que agora esmaga,
São suspiros que ela solta.

Não chores o meu alívio
Porque já não tenho mais dor.
Lá de cima vejo tudo
E a todos tenho amor.

A angústia desta vida
Já não está no coração.
E na ferida da vida
Deixo a minha solidão.

Já não rolam mais lágrimas.
Já não dói mais o coração.
E nas ilusões da vida
Os vezos que ao léu se vão.

Escrevi, ó meu amigo,
Para um abraço deixar.
A única dor que levo,
É de morrer e de te amar.

Já não estou mais junto a ti
E jaz no jazigo estou.
Da morte mando abraços
A quem um dia me amou.

Felipe da Silva

dark angel

Ilusões

Levanto-me e a solidão toma de volta a minha alma
Tão pouco tempo para viver e todos me dizem calma
Afasto pensamentos da morte e eterna solidão
Apesar de todos os momentos chorar de desilusão

O fim de toda esta dor é um momento tão esperado
Todo o passado longínquo e o presente inacabado
E todas as vezes que caí aprendi a me levantar
Mas desta vez é o fim e não adianta lamentar

E sorrio quando penso em tantas coisa banais
Mas o sorriso é apagado entre tantas memórias finais
Tanto tempo desperdiçado, tanta dor sentida
Tanto amor arrancado, tanta felicidade perdida

E quando tudo parece certo não podia estar mais iludido
Tanto vazio por preencher e o orgulho continua ferido
Tantas coisas no meu passado e continuo sem perceber
O significado de tudo e porque tudo tem de desaparecer

E quando a noite chega só desejo a madrugada
Um fio de luz numa realidade há muito esperada
Agora compreendo o significado de tantas memórias
Entre tantas derrotas consigo encontrar inúmeras vitórias

E tanta esperança apenas me dá a força para continuar
Tantos ideias e nenhum por que valha a pena lutar
A felicidade e harmonia são para mim apenas ilusões
Tempo após tempo, sou um anjo caído entre infinitas decepções

Desconhecido

quarta-feira, setembro 08, 2004


spirit

Fantasmas

O que eu fui no passado não deixa saudades
E o que sou no presente é mais do que podia esperar
A minha alma está cansada destes jogos de mortais
Onde a realidade é mentira e os sonhos ilusão
Homens quebrados nas suas esperanças destroçadas
Abraçam a obscura tranquilidade da morte
Deixando para trás pouco mais do que quando nasceram
Rumo a um futuro incerto e nunca explorado
Mas nunca perdendo a esperança
De um dia achar a sua eterna paz

Palavras que voam com o vento
Pensamentos que ecoam na minha mente
Feridas decoram o meu interior
Marcas demasiado profundas para serem esquecidas
Que todas as noites me assombram em sonhos

Demónios vestidos de negro ressurgem
Sombras de homens outrora conhecidos
Amigos que um dia significaram algo
Pessoas que confiaram em mim
Mas em que eu nunca pude confiar
Perseguido por sombras invisíveis
Fantasmas que me assustam desde criança
Olhos imaginários espreitam na escuridão
Frutos da minha mente frágil e cansada
Que sucumbe ao ar gélido que carrego nos pulmões

Dôr- essa doce inimiga que o tempo faz questão em curar
Medo- A adrenalina e emoção que faz o coração bater mais depressa
Angústia- mais um sonho despedaçado
Perdição- o regresso ao princípio de mais um fim
Morte- desconhecido que o homem teima em não aceitar

E o que foi será outra vez... Para sempre


Desconhecido

terça-feira, setembro 07, 2004


fear

Medo

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Reinaldo Ferreira

sábado, setembro 04, 2004


the guardian

Deste modo ou daquele modo

Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o Sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos A
garrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

Alberto Caeiro

crucifixion

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac

sexta-feira, setembro 03, 2004


wings of night

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti