quinta-feira, março 31, 2005


hope

Somebody

I want somebody to share
Share the rest of my life
Share my innermost thoughts
Know my intimate details
Someone who’ll stand by my side
And give me support
And in return
She’ll get my support
She will listen to me
When I want to speak
About the world we live in
And life in general
Though my views may be wrong
They may even be perverted
She’ll hear me out
And won’t easily be converted
To my way of thinking
In fact she’ll often disagree
But at the end of it all
She will understand me

I want somebody who cares
For me passionately
With every thought and
With every breath
Someone who’ll help me see things
In a different light
All the things I detest
I will almost like
I don’t want to be tied
To anyone’s strings
I’m carefully trying to steer clear of
Those things
But when I’m asleep
I want somebody
Who will put their arms around me
And kiss me tenderly
Though things like this
Make me sick
In a case like this
I’ll get away with it

Depeche Mode

quarta-feira, março 30, 2005


fire

Posso escrever os versos mais tristes...

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.

O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.

Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.

É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,

a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

terça-feira, março 29, 2005


the progression

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

sábado, março 19, 2005


no word

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, março 18, 2005


royo

Distúrbio

Gosto de ti quando estás longe.
No silêncio da reflexão.
Apenas na lembrança, gosto de ti.
Como se morto estiveste.
Como se todas as tardes guardassem as súplicas da oração das seis e
os segredos do arco-íris após a chuva.
Gosto de ti atrás desta muralha cega. Embriagada. Pálida. Intransponível.
Piloto apressada a telepatia para que entendas rápido. Para sempre.
Não quero sombra de chegança a vagar por minha expectativa.
Não quero ninhos.
Não traga nunca, nas mãos, a felicidade.
Não sei recebê-la.
Desnecessário olhar para o espelho e constatar que tenho a alma deserta
e que não sei dividir nem o canto das cigarras.
Gosto da tua voz distante. Da saudade do querer.
Não gosto de querer.
Gosto de ti ausente. Partindo sempre. Da tua mala arrumada.
Da chave jogada na mesa. Do semblante de quem perde.
Do cabelo desgrenhado. Do soco que dás no ar. Do chute que dás na porta.
Da mudez após o grito.
Gosto do teu sofrer. Das tuas lágrimas. Da tua eterna pretensão em me querer.
De mim, nem gosto.Suporto porque não tenho aonde ir.
Mas de ti...
Gosto.
Cláudia Villela de Andrade

domingo, março 13, 2005


o esconderijo

Fim do dia (No lado quente da saudade)

Esperei-te no fim de um dia cansado
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir

Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado

O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar

O escuro lá fora incendeia as estrelas
As janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua

Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste

Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu abraço fechado

E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade

Mafalda Veiga

segunda-feira, março 07, 2005


into the ocean

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, março 01, 2005


spirit rising

Como eu gostava...

Terei esquecido o ritual, ou simplesmente deixei de ter o teu olhar?
Terei perdido a garra das pontas dos meus dedos,
Ou ter-me-ão adormecido as forças no medo de te magoar, ou a mim?...
Não sei... não entendo... mas continua a ser um fogo tremendo
O que me queima a garganta e o pranto que vem do fundo do peito.
Procuro recordar no que rasgo de mim, o teu jeito,
Procuro esquecer o tempo que me doi e não consigo apagar
Esventro o pensamento e só sei que gostava de amar como tu,
Sem redes nem cabos, nem amarras, nem sonhos, nem portas, nem... !
Sem sorrisos colados nos sorrisos de ninguém!
Sem olhares ensalivados nos odores das salivas perpetuados
Nas memórias guardadas do passado e do além...

Como eu gostava de saber andar de costas
E esquecer dos sentidos que florescem na pele que é minha
E tua, também!

Como eu gostava...

Vestia de alma guerreira e fazia as orações do amanhecer da guerra
Partia depois nas asas da certeza e da indiferença,
Atravessava o estreito que se formou tão fundo no fundo do meu peito
E, num golpe de misericórdia e de imensa glória,
Arrancava-te do pedaço mais ínfimo que em mim mora!
E, à luz dos teus nobres feitos, atirava-te de mim para fora!
A seguir, num leve e desinteressado encolher de ombros,
Esquecia o som das palavras, atravessava, escondida, por entre os escombros
E apagava de mim o que de ti pudesse ser memória
E renascia!
Como eu gostava de amar como tu!

Cristina Fidalgo