
wings of night
É o fim dos sonhos
é o fim do abstrato
das nuvens,
do tempo,
da meditação.
Caio qual elefante baleado,
desabo das infâmias erectas,
e estirado na rocha,
ainda vivo respiro.
Olho para o alto,
o céu, o "heaven";
Olho nos olhos de um anjo
amorfo e sem asas
(uma dessas criaturas
a quem damos
corpos e vôos)
e pressinto dias
deliciosamente decadentes.
Abílio Mateus Jr.

crowd
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe

melaniaingreen
Às vezes vivo só dentro da minha cabeça,
só para lá, para dentro da minha cabeça.
Por exemplo, se houver só duas coisas a lembrar,
fecho-as logo entre quatro paredes que apertam
e sento-me para começar a vê-las lutar
Outras vezes, uma ideia escapa-me,
mergulha, viscosa, escorregadia, por um tubo de prata,
contorcido de velhas voltas que sufocam outras voltas,
até morrer num olho cansado e
deito-me a pensar se pela escadaria partida
de uma lágrima, a devo ou não libertar.
A maior parte das vezes acontece-me,
ainda dentro da minha cabeça,
não saber quando parar.
Aí, em posição fatal, aperto-a entre as mãos,
e fico, sem queixume ou som, apenas à espera
que alguém me venha buscar.
Fernando Ribeiro (Moonspell)

diagonal of dreams
És meu mar
meu cansaço na cadência arrítmica, inconstante, sucessiva.
Meu refrescante doce salgado, meu vale sensual, meu perfume.
Meu envolvente, meu aperto em cada entrada suada, penetrante.
És meu cristal
de tempero que explode quando te provo,
e no meio me afundo, fundo.
Tábua de salvação quando em ti mergulho,
meu mar tropical de corrente quente.
És meu mar
quando de bruços sobre ti flutuo,
cheirando-te a nuca, cobrindo-te de beijos.
Meu mar revolto, ondulante, aberto.
És meu mar,
minha ternura, quando os nossos sucos desaguam
na truculenta união da barra, teu arrepio de pseudo-sofrimento,
de grito quase desespero pelo abandono da vida nos meus braços.
És meu mar
quando passada a arrebentação, sem saberes quem sou,
me deixas afogar no brilho dos teus olhos.
Bobby Mac Y

fallen angel
Sussurros imaginários
Que passeiam e deambulam
Pelos cantos vazios e escuros
Do meu quarto…
É o eco da tua voz
Que me mantém este sorriso louco
E feliz na face…
Vã e insólita
É a esperança de te ter finalmente
Em meus braços…
Até quando vai a ilusão
Deste amor impossível
Assombrar as minhas noites
E fazer-me evocar o teu nome
Com ansiedade?
Oh mente doentia, a minha!
Por mais que saiba
Que nunca te vou ter,
És tu, meu doce Anjo,
Quem, eternamente, eu vou querer…
Karl Goth

birch witch
Ando perdido nos meus pensamentos,
Por entre devaneios e loucuras.
Seguido por infindáveis tormentos,
Paixões, medos e ilusões obscuras…
Anseio pela luz da salvação.
Aguardo pelo enterro do meu passado.
Minha alma implora pela ressurreição
De um corpo pela dor cremado…
Escuto, ao longe, a voz da perdição
Que me chama à medida que se afasta,
Querendo levar-me consigo!
Mas meu espírito permanece imóvel
Na triste espera de uma mudança
Que tarda em chegar…
Karl Goth