
mask
Eu sei que há muito pranto na existência, Dores que ferem corações de pedra, E onde a vida borbulha e o sangue medra, Aí existe a mágoa em sua essência.
No delírio, porém, da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa, Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.Augusto dos Anjos

wings of night
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam elesA boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirarFlorescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.Velar as janelas com um suspiro próprio. ConcederÀs cortinas o dom de sombrear. Pegar então numObjecto contundente e amaciá-lo com a cor. RasgarNum livro uma página estrategicamente aberta.Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na durezaFirme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavraQue te quer. Soprá-la para dentro de tiaté que a dor alegre recomece.Maria Gabriela LLansol

faceless
Ele caminha pela solidão nocturna dos quartos de hotele de fotografia em fotografia chega exaustoao minucioso poema a preto e brancomas já não o surpreende a violenta visão do mundoeste lento destroço que um liquido sussurro de pratarevela a partir de iluminada fracção de segundoe bebee amae foge de si mesmocom a leica pronta a ferir como uma bala ecoandono fundo da memória um néon uma pedrauma arquitectura de luz e sombra ou um desertoonde se debruça para retocar os dias com umlápisna certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentesa estes restos de corpos a pouco e pouco turvospelo tempo pelo sono ou pela melancoliamas regressa sempre à transumância das cidadesquando a alba do flash prende o furtivo gestosobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivodepoisvem o medoque se desprende do olhar imobilizadoe do rosto fotografadonasce uma vida de infinito caosAl Berto

doubt
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco.Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.És todo certeza, já não sabes sofrer.E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?Teus ombros suportam o mundoe ele não pesa mais que a mão de uma criança.As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifíciosprovam apenas que a vida prosseguee nem todos se libertaram ainda.Alguns, achando bárbaro o espetáculoprefeririam (os delicados) morrer.Chegou um tempo em que não adianta morrer.Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.A vida apenas, sem mistificação.
Drummond de Andrade

mole
Às vezes a imaginação caminha na neblina Descalça, tacteia o chão Tropeça nos degraus do esquecimento Cautelosamente aprecia o anonimato Divorcia-se de todas as referências Aspira a uma sublimação minimalista Perde-se na vastidão do silêncio Apenas encontra cinzenta abstracção Excita-se na presença da monotonia Grita por um tédio mundano Os olhos bebem a escuridão Testemunha a nudez das palavras Sorri para folhas em branco Festeja o vazio das pampas Dança na invisível turbulência do ar Anseia pelo vácuo sideral Desfruta do supremo prazer do nada
M.Daedalus

flights prelude
Amor é fogo que arde sem se ver,é ferida que dói, e não se sente;é um contentamento descontente,é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;é um andar solitário entre a gente;é nunca contentar-se de contente;é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;é servir a quem vence, o vencedor;é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favornos corações humanos amizade,se tão contrário a si é o mesmo Amor?Luis Vaz de Camões

scream if you'd like
Nada me prende a nada.Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.Anseio com uma angústia de fome de carneO que não sei que seja -Definidamente pelo indefinido...Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequietoDe quem dorme irrequieto, metade a sonhar.Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.Não há na travessa achada o número da porta que me deram.Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.Até a vida só desejada me farta - até essa vida...Compreendo a intervalos desconexos;Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),Nas estradas e atalhos das florestas longínquasOnde supus o meu ser,Fogem desmantelados, últimos restosDa ilusão final,Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.(...)Álvaro de Campos

pain of living
I'm not sure what I'm looking for anymoreI just know that I'm harder to consoleI don't see who I'm trying to be instead of meBut the key is a question of control
Can you say what you're trying to play anywayI just pay while you're breaking all the rulesAll the signs that I find have been underlinedDevils thrive on the drive that is fueled
All this running around, well it's getting me downJust give me a pain that I'm used toI don't need to believe all the dreams you conceiveYou just need to achieve something that rings true
There's a hole in your soul like an animalWith no conscience, repentance, oh noClose your eyes, pay the price for your paradiseDevils feed on the seeds of the soul
I can't conceal what I feel, what I know is realNo mistaking the faking, I careWith a prayer in the air I will leave it thereOn a note full of hope not despair
All this running around, well it's getting me downJust give me a pain that I'm used toI don't need to believe all the dreams you conceiveYou just need to achieve something that rings true
Depeche Mode

light of reverence
Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómitoisto é : drogo-me.........abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhosescolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve,abro a caixa dos pesadelos.....o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corposcores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformescadeiras agressivaslimo as arestas fibrosas dos objectosarrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantosdou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuadoembora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada....outra caixa, azulada, abro-aentro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na bocatenho medo durante a noitealguém se lembrou de atirar fora a caixa..........luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetasdos pequenos produtos de consumo, tóxicosFRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMANÃO INCLINARTIME TO BUY ANOTHER PACKETO quarto está completamente mobilado de corposexplodem caixas, o sangue alastraestampa-se nas paredes sujas de calendários e cromosde pin-ups obscenas....fendas de bolor no espelhoo reflexo do corpo arde como uma decalcomaniaTIME TO BUY ANOTHER PACKETtodos dormem dentro de caixas, uma serpente flutuafalamos baixinhonão se ouvem mais barulhos de cidadeo sono e o cansaço subiram-me á boca....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpose devastamos, devastamos.....Al Berto

misha gordin
Uma certa quantidade de gente à procurade gente à procura duma certa quantidadeSoma:uma paisagem extremamente à procurao problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)e o problema do quarto-atelier-aviãoEntretantoe justamente quandojá não eram precisosapareceram os poetas à procurae a querer multiplicar tudo por dezmá raça que eles têmou muito inteligentes ou muito estúpidospois uma e outra coisa eles sãoJesus Aristóteles Platãoabrem o mapa:dói aquidói acoláE resulta que também estes andavam à procuraduma certa quantidade de genteque saía à procura mas por outras bandasbandas que por seu turno também procuravam imensoum jeito certo de andar à procura delesvisto todos buscarem quem andasseincautamente por ali a procurarQue susto se de repente alguém a sério encontrasseque certo se esse alguém fosse um adolescentecomo se é uma nuvem um atelier um astro Mário Cesariny

tethered sky
Já alguém sentiu a loucuravestir de repente o nosso corpo?Já.E tomar a forma dos objectos?Sim.E acender relâmpagos no pensamento?Também.E às vezes parecer ser o fim?Exactamente.Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?Tal e qual.E depois mostrar-nos o que há-de virmuito melhor do que está?E dar-nos a cheirar uma corque nos faz seguir viagemsem paragemnem resignação?E sentirmo-nos empurrados pelos rinsna aula de descer abismose fazer dos abismos descidas de recreioe covas de encher novidade?E de uns fazer gigantese de outros alienados?E fazer frente ao impossívelatrevidamentee ganhar-Ihe, e ganhar-Ihea ponto do impossível ficar possível?E quando tudo parece perfeitopoder-se ir ainda mais além?E isto de desencantar vidasaos que julgam que a vida é só uma?E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?Tu Só, loucura, és capaz de transformaro mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuaisSó tu és capaz de fazer que tenham razãotantas razões que hão-de viver juntas.Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.Só tu tens asas para dara quem tas vier buscarJosé de Almada Negreiros

tim umney
O dúbio mascarado o mentirosoAfinal, que passou na vida incógnitoO Rei-lua postiço, o falso atónito;Bem no fundo o covarde rigoroso.
Em vez de Pajem bobo presunçoso.Sua Ama de neve asco de um vómito.Seu ânimo cantado como indómitoUm lacaio invertido e pressuroso.
O sem nervos nem ânsia - o papa- açorda,(Seu coração talvez movido a corda...)Apesar de seus berros ao Ideal
O corrido, o raimoso, o deslealO balofo arrotando Império astralO mago sem condão, o Esfinge Gorda. Mário de Sá-Carneiro

leaving
Estou certo de que não terás mais
de viver comigo ou com o que resta de mim.
Deixo-me adormecer durante horas para
que saibas que me afasto a passos largos,
com sombras por detrás.
O meu corpo, por onde quer que vá,
espalha incêndios que não me recordo
como apagar - pensar que um fogo assim se
alimenta cresce reproduz-se e morre
e que nada mais deixa a pedir.
Para que hoje eu entre pela porta
bastará que os nossos corpos se encontrem
num lugar onde não vou dizer.
Chegarás, por teu pé, aonde os velhos descansam
e onde cicatrizes rolam pelo corpo
e pela consciência.
Com o tempo, o que não aprendeste
quando nasceste torna-se inerente a ti, torna-se
um braço, uma mão, um dedo que se estende
na memória e que aponta no mapa da cidade
a casa as paredes e o soalho
as prisões os âmagos de quem partiu de
lá - como nós.
E por hoje, fico com fome.
Pelos caminhos as fogueiras como pequenos faróis
no nevoeiro que levanto ao caminhar
enquanto que os meus pés se tornam
rasgos na estrada e eu me dilúo na multidão
para ser escrito.
E um jovem toca-me no ombro e então
desperto e estou próximo a dois passos
do que deixei para trás.Sérgio Xarepe

forest bed
Como acordar sem sofrimento?Recomeçar sem horror?O sono transportou-meàquele reino onde não existe vidae eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,a fábula inconclusa,suportar a semelhança das coisas ásperasde amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridasque rasga em mim o acontecimento,qualquer acontecimentoque lembra a Terra e sua púrpurademente?E mais aquela ferida que me inflijoa cada hora, algozdo inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.Carlos Drummond de Andrade