Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;E apesar disso, crê! nunca pensei num larOnde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.Nem depois de acordar te procurei no leitoComo a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizoA tua cor sadia, o teu sorriso terno...Mas sinto-me sorrir de ver esse sorrisoQue me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receioDa luz crepuscular, que enerva, que provoca.Eu não demoro o olhar na curva do teu seioNem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...Eu não sei que mudança a minha alma pressente...Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,Que adoecia talvez de te saber doente.Camilo Pessanha
Não sei se respondo ou se pergunto. Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio. Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra. Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho. De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante. A minha ebriedade é a da sede e a da chama. Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio. O que eu amo não sei. Amo em total abandono. Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente. Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim. Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido. Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença. Não sou a destruição cega nem a esperança impossível. Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra. António Ramos Rosa
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos.Mário Cesariny
Passo pálida e triste. Oiço dizer"Que branca que ela é! Parece morta!"E eu que vou sonhando, vaga, absorta,Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...Que diga o mundo e a gente o que quiser!-O que é que isso me faz?... o que me importa?...O frio que trago dentro gela e cortaTudo que é sonho e graça na mulher!O que é que isso me importa?! Essa tristezaÉ menos dor intensa que frieza,É um tédio profundo de viver!E é tudo sempre o mesmo,eternamente...O mesmo lago plácido,dormente dias,E os dias,sempre os mesmos,a correr...Florbela Espanca
Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.
A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.
E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo. Gottfried Benn
A todos vocês,que eu amei e que eu amo,ícones guardados num coração-caverna,como quem num banquete ergue a taça e celebra,repleto de versos levanto meu crânio.Penso, mais de uma vez:seria melhor talvezpôr-me o ponto final de um balaço.Em todo casoeuhoje vou dar meu concerto de adeus.Memória!Convoca aos salões do cérebroum renque inumerável de amadas.Verte o riso de pupila em pupila,veste a noite de núpcias passadas.De corpo a corpo verta a alegria.Esta noite ficará na História.Hoje executarei meus versosna flauta de minhas próprias vértebras.Vladimir Maiakovski
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida do lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.Ingeborg Bachmann
Há dentro de mim uma espécie de repouso,um começo sem fim,algo de asa sem pouso,um inquieto pousardo vir a ser, sem chegar.Repousa uma contida magiaque, cautelosa e mansa,se enfia, se enrosca e desfiauma previsão de salvar.Salvar o que estava esquecidonum canto certo, perdido,um verso que, ao reverso,se põe a tergiversar.Habita-me uma gravidezde esperanças e milagres,uma estranha prenheznos olhos, de mil lágrimasque esperavam desaguar.Resta apenas sair por aísem o medo do medonho,tatuar a vida de sonhose esperar a hora chegar.Débora Denadai