sexta-feira, dezembro 23, 2005


summoning

Dilema

Inconscientemente ela tornou-se parte dele,
Quando se apercebeu era já tarde de mais.
Ao crepúsculo sentiu-se dividido no seu íntimo.
Pestanejou, apreciando a húmidade nos olhos.
Na mente, os pensamentos de mais uma noite de insónia.

Rasgou poemas inacabados,
Durante largos dias não conseguiu trabalhar,
Vendo laranjais que brotaram do deserto,
Debatendo-se com um território fora dos mapas,

Ela tornou-se numa profissão de fé ou numa obsessão?
Não mais uma ansiedade, apenas uma questão académica.
Por alguma razão ele já não estava disposto a defender-se,
Uma antiga matriz mental triunfou sobre a racionalidade.

Agora, contemplando de longe os seus dilemas,
Tardiamente tendo despido um engano galopante,
Inteiramente imerso numa torrente glacial de mágoa,
O seu intelecto não obedecia a uma ordem para deixar de amar,
Implacavelmente, rebelando-se contra a sua própria disciplina.


M.Daedalus

terça-feira, dezembro 20, 2005


doubt

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca

sexta-feira, dezembro 16, 2005


before end

Também Este Crepúsculo

Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei a minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?
Caiu o livro em que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido encostou-se a minha capa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando as estátuas.

Pablo Neruda

quinta-feira, dezembro 15, 2005


schatz

A Metade Perdida de Nós Próprios

[Tomas] Lembrou-se do célebre mito do Banquete de Platão:
dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas
e Deus separou-os em duas metades, que, desde então,
erram pelo mundo à procura uma da outra.
Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.
Admitamos que assim seja;
que cada um de nós tenha algures no mundo um par
com o qual constituía em tempos um único corpo.

Milan Kundera- A Insustentável Leveza do Ser

terça-feira, dezembro 13, 2005


the lovers

Noites

Há noites que são feitas de pedaços
Recolhidos de noites já desfeitas
Perdidas na promessa dos abraços
De noites que nunca foram feitas

Há noites que nos levam para onde
Outras noites de nós ficam mais perto
E mostram o lugar onde se esconde
Um sonho nunca antes descoberto

Há noites de palavras murmuradas
Que incendeiam a noite numa festa
E que são nas longas madrugadas
A única alegria que nos resta

Há noites que são noites impossíveis
Escondidas num gesto ou num sorriso
Mas que às vezes se tornam tao visíveis
Que o amor acontece de improviso

Há noites feitas de suspiros e paixões
Onde o sonho tantas vezes acontece
Ao ritmo de inquietos corações
Que acordam sós quando amanhece.

Albino Santos Oliveira

segunda-feira, dezembro 12, 2005


identify crisis

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

sexta-feira, dezembro 09, 2005


god´s project

Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

Augusto dos Anjos

terça-feira, dezembro 06, 2005


the breakfast

Se Cada Dia Cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

life

Sim.Farei...

Sim, farei...; e hora a hora passa o dia...
Farei, e dia a dia passa o mês...
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.

Farei, farei... Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo... E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão...

Farei, farei, farei... Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo -- a paz, ilusão, a glória...
Que obscuro absurdo a minha alma chora?

Farei talvez um dia um poema meu,

Não qualquer cousa que, se eu a analiso,
É só a teia que se em mim teceu
De tanto alheio e anónimo improviso
Que ou a mim ou a eles esqueceu...

Um poema próprio, em que me vá o ser,
Em que eu diga o que sinto e o que sou,
Sem pensar, sem fingir e sem querer,
Como um lugar exacto, o onde estou,
E onde me possam, como sou, me ver.

Ah, mas quem pode ser o que é? Quem sabe
Ter a alma que tem? Quem é quem é?
Sombras de nós, só reflectir nos cabe.
Mas reflectir, ramos irreais, o quê?
Talvez só o vento que nos fecha e abre.

Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre o sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

sábado, dezembro 03, 2005

Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.


Mário de Sá-Carneiro