
endlessdream
Como um viajante cansado,descansas a mente no meu corpo.Nele inscreves tua letracom as marcas dos teus dedose com as tintas da tua saliva.Como um clandestinono meu paísficas como um mistério indecifrável.Guardas na minha boca o silêncio da tua boca.Nos meus olhos permanece,como um poema, o intraduzível que mora nos teus.Quando, ao final da viagem,meu corpo, desabitado de ti,descansa ao teu lado,teus olhos ainda habitam-me,clandestinamente,perenizando o momento fugazna forma da emoção permanenteque inscreves publicamenteem todos os caminhosda minha terra que abrigaa rede do teu exílio voluntáriona curva exacta que ficana dobra dos lençóis...Débora Cristina Denadai

siudmak
Hoje de manhã saí muito cedo,Por ter acordado ainda mais cedoE não ter nada que quisesse fazer...Não sabia que caminho tomarMas o vento soprava forte, varria para um lado,E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.Assim tem sido sempre a minha vida, eAssim quero que possa ser sempre Vou onde o vento me leva e não meSinto pensar. Alberto Caeiro

hungry for your touch
Dois amantes ditosos fazem um só pão, uma só gota de lua na erva, deixam andando duas sombras que se reúnem, deixam um só sol vazio numa cama...De todas as verdades escolheram o dia....não se ataram com fios senão com um aroma, e não despedaçaram a paz nem as palavras...A ventura é uma torre transparente...O ar, o vinho vão com os dois amantes, a noite lhes oferta suas ditosas pétalas, têm direito a todos os cravos...Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem...têm da natureza a eternidade... Pablo Neruda

vallejo
O vento é um cavalo:ouve como ele correpelo mar, pelo céu.Quer me levar: escutacomo ele corre o mundopara levar-me longe.Esconde-me em teus braçospor esta noite erma,enquanto a chuva rompecontra o mar e a terrasua boca inumerável.Escuta como o ventome chama galopandopara levar-me longe.Como tua fronte na minha,tua boca em minha boca,atados nossos corposao amor que nos queimadeixa que o vento passesem que possa levar-me.Deixa que o vento corracoroado de espumaque me chame e me busquegalopando na sombra,enquanto eu, protegidosob teus grandes olhos,por esta noite sódescansarei meu amor.Pablo Neruda

little golden cloud
O seu feitiço com os outros,são simplesmente seus ouvidos moucos,aos seus cabelos e olhos negros,que por muito que lhe digam parecem erros.Só de olhar deixam esperanças,de seus risos de criança,de seu esbracejar desajeitado,do seu falar arrojado.Que assim volte seu sorriso escondido,por suas ideias reprimido,para que um dia o confortes,quando só os outros sejam fortes.Tudo isto separado serão elogios.Todos juntos um dia eu vi-os.Algum dia eu iria pensar,que se juntassem então para dar:O FeitiçoAlfredo Morelli

le chant des diamants
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o
amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que
tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus
amigos e o quanto minha vida depende de suas existências .
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não
posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.
E, às vezes, quando os procuro, noto que ele não tem
noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu
equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente,
construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em
síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando
daquele prazer ...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a
roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando
comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus
amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber
que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.Vinícius de Moraes

hate
(...)Tu nem vives nem deixas viver os mais, Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais! Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopionovelo emaranhado da minha dor! Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio abismo-descida de Eu não querer descer! Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina Hei-de ser cigana da tua sina Hei-de ser a bruxa do teu remorso Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha em águas fortes de Goya e no cavalo de Tróia e nos poemas de Poe! Hei-de feiticeira a galope na vassoura largar-te os meus lagartos e a Peçonha! Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra! Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco e depois na carne-viva deitar fel, e depois na carne-viva semear vidros, semear gumes, lumes, e tiros. Hei-de gozar em ti as poses diabólicas dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro! Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques, e desfraldar-te nas canelas mirradas o negro pendão dos piratas! Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos! Hei-de bóia do Destino ser em brasa e tua náufrago das galés sem horizontes verdes! E mais do que isto ainda, muito mais: Hei-de ser a mulher que tu gostes, hei-de ser Ela sem te dar atenção! Ah! que eu sinto claramente que nasci de uma praga de ciúmes. Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a penar!... José Almada Negreiros

branch of life
Depois de algum tempo você aprende a diferença,a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.E começa a aprender que beijos não são contractos e presentes não são promessas.E começa a aceitar as suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a raça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.E aprende a construir todas as suas estradas no hoje,porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.(...)William Shakespeare

eye
Se num momento de loucura acaso arriscares acima do tédio e afoito sozinho dobrares a agreste solidão da esquina dos dias, poderás então entrever por entre as brumas do tempo a imensa multidão e o verde prazer das tuas mais urgentes utopias. Se depois com ardor escreveres - ridícula como o poeta a dizia - uma simples carta de amor cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor sinceros significados tão prementes que a ouro fiquem bordados no seio nu das palavras inexistentes, imune farás tombar do muro os pecados com que este presente impune procura sarcástico esconder-nos o futuro. Se porem impossível te for a sangria das palavras a sério e ao cansaço sem outra saída com fúria não conseguires opor a beleza dum punho bem apertado, arrepia caminho e não ouses. Nunca ouses monstro malfadado dobrar a esquina deste tempo de cobardias prenhe e silêncios cheio. Porque só o amor mata a hipocrisia e reconhece os homens iguais porque para além deste dia só de olhos escancarados se sonha a utopia.Adriano Alcantara

blind justice
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimosA paz sem vencedor e sem vencidosQue o tempo que nos deste seja um novoRecomeço de esperança e de justiça.Dai-nos Senhor a paz que vos pedimosA paz sem vencedor e sem vencidosErguei o nosso ser à transparênciaPara podermos ler melhor a vidaPara entendermos vosso mandamentoPara que venha a nós o vosso reinoDai-nos Senhor a paz que vos pedimosA paz sem vencedor e sem vencidosFazei Senhor que a paz seja de todosDai-nos a paz que nasce da verdadeDai-nos a paz que nasce da justiçaDai-nos a paz chamada liberdadeDai-nos Senhor a paz que vos pedimosA paz sem vencedor e sem vencidosSophia de Mello Breyner Andresen

silent scream
Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra. Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder. Clarice Lispector