quinta-feira, outubro 27, 2005


fear of truth

O Risco da Lucidez

Ando vivendo, não raro,
momentos de uma clareza absurda.
Estes momentos, é claro,
chegam num lapso, um espaço pequeno,
mínimo, entre o calar e estar muda.
São momentos de uma lucidez extrema,
de uma clareza tamanha,
e como num poema da Clarice,
também me pergunto o que se ganha,
e penso, como ela mesma disse,
que não sei de que me adianta
tanta clareza de realidade,
tanto enxergar o nada,
tanta compreensão do que é verdade.
Ver claro é um risco, uma cilada,
mais fácil é entender a irrealidade
do que a realidade da estrada.
A visão clara abre espaço para o nada,
abre-nos a visão daquilo que é,
fecha a porta do que pensávamos ser.
Ver claro muitas vezes turva a fé
tão cega que pensávamos ter.
Fico, por assim dizer,
no limbo entre o que é e o vir a ser.
Um intervalo milimetricamente pequeno
entre o que sou e o que penso ser.
Perigosa clareza, arriscada lucidez
que impele a sair da acomodação
de viver numa espécie de viuvez
da minha cômoda resignação
de viver no irreal confortável,
de desistir da cegueira de então,
e persistir no imperscrutável.
Insistir na visão do intervalo
pequeníssimo, mas ostensivo,
entre o calado e o que falo,
entre o que sonho e o que vivo.
Como usar tanta lucidez
em meio a tanto (pre)conceito,
em meio à geral estupidez?
Que Deus (ou a Vida) me permitam existir,
persistir e consistir,
no claro e no obscuro,
no estar e no porvir,
na luz ou na sombra escura,
e de mim mesma me rir.

Débora Cristina Denadai

terça-feira, outubro 25, 2005


lovers

Os Amantes

A noite, que tu trazes, nunca é escura
nem vem para esconder qualquer pecado.
É outra luz do dia que perdura
quando já posto o sol te tenho ao lado.

Renasce então em nós como a aurora
essa loucura, que ficou assinalada
numa cama que é o berço nessa hora
de um amor que desafia a madrugada

E nus, em frente ao espelho, de manhã,
essa imagem de um só corpo somos nós
ligados por um beijo até amanhã
quando, uma vez mais, estivermos sós

Depois da despedida e do abraço,
da partida apressada para o mundo,
resta desse amor um leve traço
que ligou as nossas vidas num segundo.

E ficamos a esperar o dia inteiro,
separados um do outro pela vida,
que a noite volte cedo e traga o cheiro
desse encontro que é sempre uma despedida

E, afinal, desses momentos que gozámos,
desses corpos que se amaram por inteiro
desse fruto que juntos devorámos,
num amor febril como o primeiro

Fica o que de vida foi semente
como tantas que desperdiçámos antes:
uma nódoa num lençol ainda quente
a lembrar que ali estiveram dois amantes.


Fernando Tavares Rodrigues

quinta-feira, outubro 20, 2005


dialogue with the sphinx

Ódio?

Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena.

Florbela Espanca

quarta-feira, outubro 19, 2005


painting

A Queda

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la

E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso.., ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à mingua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

Tombei...

E fico só esmagado sobre mim!...

Mário de Sá Carneiro

quarta-feira, outubro 12, 2005

segunda-feira, outubro 03, 2005


voodoo girl

Voodoo Girl

Her skin is white cloth,
And she's all sewn apart
And she has many colored pins
Sticking out of her heart.

She has a beautiful set
Of hypno-disk eyes,
The ones that she uses
To hypnotize guys.

She has many different zombies
Who are deeply in her trance.
She even has a zombie
Who was originally from France.

But she knows she has a curse on her,
A curse she cannot win.
For if someone gets
Too close to her,

The pins stick farther in.

Tim Burton in " The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories"