
fear of truth
Ando vivendo, não raro,momentos de uma clareza absurda.Estes momentos, é claro,chegam num lapso, um espaço pequeno,mínimo, entre o calar e estar muda.São momentos de uma lucidez extrema,de uma clareza tamanha,e como num poema da Clarice,também me pergunto o que se ganha,e penso, como ela mesma disse,que não sei de que me adiantatanta clareza de realidade,tanto enxergar o nada,tanta compreensão do que é verdade.Ver claro é um risco, uma cilada,mais fácil é entender a irrealidadedo que a realidade da estrada.A visão clara abre espaço para o nada,abre-nos a visão daquilo que é,fecha a porta do que pensávamos ser.Ver claro muitas vezes turva a fétão cega que pensávamos ter.Fico, por assim dizer,no limbo entre o que é e o vir a ser.Um intervalo milimetricamente pequenoentre o que sou e o que penso ser.Perigosa clareza, arriscada lucidezque impele a sair da acomodaçãode viver numa espécie de viuvezda minha cômoda resignaçãode viver no irreal confortável,de desistir da cegueira de então,e persistir no imperscrutável.Insistir na visão do intervalopequeníssimo, mas ostensivo,entre o calado e o que falo,entre o que sonho e o que vivo.Como usar tanta lucidezem meio a tanto (pre)conceito,em meio à geral estupidez?Que Deus (ou a Vida) me permitam existir,persistir e consistir,no claro e no obscuro,no estar e no porvir,na luz ou na sombra escura,e de mim mesma me rir. Débora Cristina Denadai

lovers
A noite, que tu trazes, nunca é escuranem vem para esconder qualquer pecado.É outra luz do dia que perduraquando já posto o sol te tenho ao lado.Renasce então em nós como a auroraessa loucura, que ficou assinaladanuma cama que é o berço nessa horade um amor que desafia a madrugadaE nus, em frente ao espelho, de manhã,essa imagem de um só corpo somos nósligados por um beijo até amanhãquando, uma vez mais, estivermos sósDepois da despedida e do abraço,da partida apressada para o mundo,resta desse amor um leve traçoque ligou as nossas vidas num segundo.E ficamos a esperar o dia inteiro,separados um do outro pela vida,que a noite volte cedo e traga o cheirodesse encontro que é sempre uma despedidaE, afinal, desses momentos que gozámos,desses corpos que se amaram por inteirodesse fruto que juntos devorámos,num amor febril como o primeiroFica o que de vida foi sementecomo tantas que desperdiçámos antes:uma nódoa num lençol ainda quentea lembrar que ali estiveram dois amantes.Fernando Tavares Rodrigues

dialogue with the sphinx
Ódio por ele? Não... Se o amei tanto, Se tanto bem lhe quis no meu passado, Se o encontrei depois de o ter sonhado, Se à vida assim roubei todo o encanto... Que importa se mentiu? E se hoje o pranto Turva o meu triste olhar, marmorizado, Olhar de monja, trágico, gelado Como um soturno e enorme Campo Santo! Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante! Quero senti-lo doutra, bem distante, Como se fora meu, calma e serena! Ódio seria em mim saudade infinda, Mágoa de o ter perdido, amor ainda. Ódio por ele? Não... não vale a pena. Florbela Espanca

painting
E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-laE giro até partir... Mas tudo me resvalaEm bruma e sonolência.
Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,Volve-se logo falso.., ao longe o arremesso...Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,Morro à mingua, de excesso.
Alteio-me na cor à força de quebranto,Estendo os braços de alma- e nem um espasmo venço!...Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...Agonias de luz eu vibro ainda entanto.
Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -E como inda sou luz, num grande retrocesso,Em raivas ideais ascendo até ao fim:Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...
Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!... Mário de Sá Carneiro

angel's fall
É talvez o último dia da minha vida.Saudei o Sol, levantando a mão direita,Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada. Alberto Caeiro

Vitor e eu
Chegavas sempre atrasado para tudo, desta vez foste cedo demais...Adeus Amigo

voodoo girl
Her skin is white cloth,
And she's all sewn apart
And she has many colored pins
Sticking out of her heart.
She has a beautiful set
Of hypno-disk eyes,
The ones that she uses
To hypnotize guys.
She has many different zombies
Who are deeply in her trance.
She even has a zombie
Who was originally from France.
But she knows she has a curse on her,
A curse she cannot win.
For if someone gets
Too close to her,
The pins stick farther in.
Tim Burton in " The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories"