quarta-feira, junho 29, 2005


interior dialogue

Um Dia a Solidão

Um dia, a solidão
- que dor de vergonha! -
levou-me pela mão
para seu baluarte
e disse-me " sonha!
O sonho é a tua lei"

E eu para ali fiquei,
Tão farto de ser eu,
A ouvir o meu coração
Bater em toda a parte,
Nos astros do chão,
Nas pedras do céu.

E eu para ali fiquei
A arrancar a carne das unhas,
Sozinho no meu jardim,
A viver sem testemunhas
No espelho de mim.

E eu para ali fiquei
Com o mundo a obedecer
aos meus caprichos:
A luz, as flores, os bichos

E o sol enforcado na floresta,
Na alucinação
Duma corda de lava
A baloiçar ao vento da minha'alma à solta…

E eu para ali fiquei
- pobre de mim que ignorava
a dor da verdadeira solidão
que é esta! Que é esta!…

Muita gente à minha volta
E eu aos tombos pelas ruas,
longe de todos e de mim,
a morrer pelos outro
sem barricadas de estrelas e de luas

José Gomes Ferreira

segunda-feira, junho 27, 2005


the shelter

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, junho 23, 2005


reincarnation

Vôo

Alheias e nossas as palavras
voam.
Bando de borboletas multicores,
as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres,
as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e rectas acima de nós, em redor de nós
as palavras voam.
E às vezes pousam.

Cecília Meirelles

segunda-feira, junho 20, 2005


waves of time

Que Diremos Ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um do outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.

Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras? este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras, ou luz ainda?

Palavras, não. Quem as sabia?
Foi apenas lembrança de outra luz.
Nem luz seria, apenas outro olhar.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, junho 17, 2005


phantom sailing ship

The Ship Song

Come sail your ships around me
And burn your bridges down
We make a little history, baby
Every time you come around

Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down
You are a little mystery to me
Every time you come around

We talk about it all night long
We define our moral ground
But when I crawl into your arms
Everything comes tumbling down

Come sail your ships around me
And burn your bridges down
We make a little history, baby
Every time you come around

Your face has fallen sad now
For you know the time is nigh
When I must remove your wings
And you, you must try to fly

Come sail your ships around me
And burn your bridges down
We make a little history, baby
Every time you come around

Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down
You are a little mystery to me
Every time you come around

Nick Cave

quarta-feira, junho 15, 2005


fallen angel

O Olhar da Lua

Valsando na neve
Chegas numa onda perfumada
Tens passos de um anjo de desejo
Procuras-te, mas tens nevoeiro na alma
Destilas a essência da ambiguidade
Esboças profecias corruptas
Argumentas com o estranho no teu íntimo
Incerta no olhar, convicta na ansiedade
Sempre despiste as perguntas
Ignoraste todas as probabilidades
Apenas planeias a próxima jornada
Consegues prometer sem mentir
Acreditas mas jamais sentes
Traduzes o teu amor em ausência
Convocando cicatrizes da imaginação
Sentinelas protegem-te das emoções
Aceitas que te concedam o mundo
Ofereces o frio olhar da lua
Desdenhando tanto como desconhecendo
Transportas um sorriso letal
Um perigo eremita
A voz do tempo nada te diz
Saboreias o desespero dos outros
Acaricias as feridas que causaste
E quando partes, partes sem dor.

M. Daedalus

quinta-feira, junho 09, 2005


reflections

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris
e minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

quarta-feira, junho 08, 2005


the game

Acordar Viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora,
algoz do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.

Carlos Drumond de Andrade

terça-feira, junho 07, 2005


exalted advance

Estio

A poesia corrompe os dedos que escrevem.
Caem dos braços, como frutos podres,
e infectam a terra branca do amanhecer.
Leio o verso interrompido pela doença.
Reconstituo o final do poema,
a evocação do corpo com febre;
e abraço a mulher pálida que o poema oculta.
«Amo-te», digo-lhe.
Ela despe-se na obscuridade da memória,
deixando atrás de si uma sombra de antigos lençóis.
A luz do meio-dia, ouço, apagou essa imagem;
e revela o vermelho dos lábios
de onde escorre o riso límpido do amor.

- Tarde em que as janelas batem;
e um vento interrompe a conversas dos amantes;
e o mar se despe de agosto com as marés vivas
que o hábito ignora.

Nuno Júdice

sexta-feira, junho 03, 2005


discipline

Free Love

If you've been hiding from love
If you've been hiding from love
I can understand where you're coming from
I can understand where you're coming from

If you've suffered enough
If you've suffered enough
I can understand what you're thinking of
I can see the pain that you're frightened of

And I'm only here
To bring you free love
Let's make it clear
That this is free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love

I've been running like you
I've been running like you
Now you understand why I'm running scared
Now you understand why I'm running scared

I've been searching for truth
I've been searching for truth
And I haven't been getting anywhere
No I haven't been getting anywhere

And I'm only here
To bring you free love

Depeche Mode



quarta-feira, junho 01, 2005


cleavenger

Vai-te, Poesia

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!

José Gomes Ferreira