terça-feira, maio 31, 2005


the letter

Preciso,para

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne
cá centro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

Marina Colasanti

sábado, maio 28, 2005


bergkvist

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meirelles

quarta-feira, maio 25, 2005


sorayama

Não Digas Nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis

Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa

segunda-feira, maio 23, 2005


golden angel

Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

Florbela Espanca

sexta-feira, maio 20, 2005


obsession

Only You

We suffer everyday, what is it for
These crimes of illusion, are fooling us all
And now I am weary and I feel like I do

It's only you, who can tell me apart
And it's only you, who can turn my wooden heart

The size of our fight, it's just a dream
We've crushed everything I can see, in this morning selfishly
How we've failed and I feel like I do

It's only you, who can tell me apart
And it's only you, who can turn my wooden heart

Now that we've chosen to take all we can
This shade of autumn, a stale bitter end
Years of frustration lay down side by side

And it's only you, who can tell me apart
And it's only you, who can turn my wooden heart

It's only you, who can tell me apart
And it's only you, who can turn my wooden heart

Portishead

quarta-feira, maio 18, 2005


the serenade

Open

I really don't know what i'm doing here
i really think i should've gone to bed tonight but...
just one drink
and there're some people to meet you
i think that you'll like them
i have to say we do
and i promise in less than an hour we will honestly go
now why don't i just get you another
while you just say hello...

Yeah just say hello...

So i'm clutching it tight
another glass in my hand
and my mouth and the smiles
moving up as i stand up
too close and too wide
and the smiles are too bright
and i breathe in too deep
and my head's getting light
but the air is getting heavier and it's closer
and i'm starting to sway
and the hands on all my shoulders don't have names
and they won't go away
so here i go
here i go again...

Falling into strangers
and it's only just eleven
ans i'm staring like a child
until someone slips me heaven
and i take it on my knees
just like a thousand times before
and i get transfixed
that fixed
and i'm just looking at the floor
just looking at the floor
yeah i look at the floor

And i'm starting to laugh
like an animal in pain
and i've got blood on my hands
and i've got hands in my brain
and the first short retch
leaves me gasping for more
and i stagger over screaming
on my way to the floor
and i'm back on my back
with the lights and the lies in my eyes
and the colour and the music's too loud
and my head's all the wrong size
so here i go
here i go again...

Yeah i laugh and i jump
and i sing and i laugh
and i dance and i laugh
and i laugh and i laugh
and i can't seem to think
where this is
who i am
why i'm keeping this going
keep pouring it out
keep pouring it down
and the way the rain comes down hard
that's the way i feel inside...

I can't take it anymore
this it i've become
this is it like i get
when my life's going numb
i just keep moving my mouth
i just keep moving my feet
i say i'm loving you to death
like i'm losing my breath
and all the smiles that i wear
and all the games that i play
and all the drinks that i mix
and i drink until i'm sick
and all the faces that i make
and all the shapes that i throw
and all the people i meet
and all the words that i know
makes me sick to the heart
oh i feel so tired...

And the way the rain comes down hard
that's how i fell inside...

The Cure

terça-feira, maio 17, 2005


the tempest

O Meu Mundo

O meu mundo não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais;
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante
que eu nem mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessoa;
sou antes uma exaltada,
com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade… sei lá de quê!

Florbela Espanca

segunda-feira, maio 16, 2005


siudmak

Deste Modo ou Daquele Modo

Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu,
Um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

Alberto Caeiro

domingo, maio 15, 2005


d.quixote

Impressao Digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão

sexta-feira, maio 13, 2005


ascent

Uma Vida Vulgar

Um cinzento Sabat numa vida vulgar.
A chuva martela gentilmente a relva.
Uma sirene da polícia apaga-se na distância.
Livros abertos jazem abandonados no soalho.

O jovem engole mais um par de comprimidos
Apenas outro ritual executado em vão.
Tentou sentir ciúme, tentou sentir raiva.
Já não confia. Já não acredita.

Traz lágrimas por verter, que jamais secarão,
Usa a contemplação para ocultar a ociosidade,
Desejando jamais ter escrito cartas de amor,

Recordando a montanha-russa emocional,
Saboreando a perfeita embriaguez da insónia,
Perseguido por uma orgulhosa fé no futuro.

Um passado capturado em fotos de encontros insanos.
Momentos fugidios de felicidade para um coração aprisionado.
A solidão dos aeroportos preenche as suas memórias.
Em cada página do seu passaporte um poema para ela.

Silenciosa e fria personificação de Nemesia,
Tudo o que ela lhe concedeu foi tristeza.
As feridas de uma alma violada estão ainda frescas.
Mas amor é o que permanece na sua ausência.

M. Daedalus

quarta-feira, maio 11, 2005


siudmak

A Noite na Ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos

sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro

me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,

enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca

saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia .

Pablo Neruda

terça-feira, maio 10, 2005


loved

Amor em Cabo Frio

O mar e o amor
marcaram a pedra,
e nada mais.
Os passos descalços dos casais
gravaram a rocha,
os dedos do mar,
aflitos,
arranharam a cara do granito
na ânsia da escalada.

(existem, é certo,

a velha escada,
o Forte assaltado pelo tempo,
velhas peças
que atiraram contra a vida,
mas não deixaram impressas
canções maiores
nem ânsias definidas.)

Só você marcou a tarde
e a loura praia perdida,
as dunas de areia branca
os rumos de minha vida.

Pássaro fugido
pousaste na penedia
trazendo nas formas esguias
os cantos dos mares todos.

Flutuaste como a pétala,
enfeitando de moreno
as águas do mar azul.

Incendiaste a praia-leito
com teus gemidos de amor.

Sobreviventes do desamor
nos afogamos em nossos braços
e no imenso mar do bem querer...

Osório Peixoto Silva

domingo, maio 08, 2005


d cleavenger

Áspero Amor

Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado, lança das dores,
corola da colera, por que caminhos
e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso, de repente,
entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
que flor, que pedra, que fumaça
mostraram minha morada?
O certo é que tremeu noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com teu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas
e espinhos abriu no coração um caminho queimante.


Pablo Neruda

borys

Não te amo mais

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais..

Clarisse Lispector

sexta-feira, maio 06, 2005


siudmak

O Aniversário

Finalmente chegou
o tão esperado dia
de quem comigo ficou
na tristeza e na alegria.

Isso sim é companheiro!
Jamais vi nada igual.
Ele é tão faceiro,
— não é brincadeira —
é muito especial.

Ele sempre me entende
e eu o entendo, também.
Ao tocar-lhe suavemente
ele fica comovente
e se sente tão bem.

E hoje,
no seu aniversário
eu seria um salafrário
se nada falasse
para comemorar esse dia.

Zacarias Martins

quinta-feira, maio 05, 2005


boris

Para quê complicar?

Não precisas de presentes
Nem rimas, nem flores, nem nada
Basta trazeres o que sentes
E chegares de madrugada

Perde as mãos pelo meu corpo
Faz-me calar com um beijo
Como se eu fosse o teu porto
E tu meu mar de desejo

Deixa falar a paixão
Não faças juras de amor
É só carinho e tesão
Suor, gemidos, calor

Enrosca-te no meu seio
Os corações a bater
Sem confusão, sem rodeio
Mais simples não pode ser.

Rosa Cordeiro

quarta-feira, maio 04, 2005


john pitre

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Ferreira