
interior dialogue
Um dia, a solidão- que dor de vergonha! -levou-me pela mãopara seu baluartee disse-me " sonha!O sonho é a tua lei"E eu para ali fiquei,Tão farto de ser eu,A ouvir o meu coraçãoBater em toda a parte,Nos astros do chão,Nas pedras do céu.E eu para ali fiqueiA arrancar a carne das unhas,Sozinho no meu jardim,A viver sem testemunhasNo espelho de mim.E eu para ali fiqueiCom o mundo a obedecer aos meus caprichos:A luz, as flores, os bichosE o sol enforcado na floresta,Na alucinaçãoDuma corda de lavaA baloiçar ao vento da minha'alma à solta…E eu para ali fiquei- pobre de mim que ignoravaa dor da verdadeira solidãoque é esta! Que é esta!…Muita gente à minha voltaE eu aos tombos pelas ruas,longe de todos e de mim,a morrer pelos outrosem barricadas de estrelas e de luasJosé Gomes Ferreira

the shelter
A minha casa é concha. Como os bichosSegreguei-a de mim com paciência:Fechada de marés, a sonhos e a lixos,O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.O orgulho carregado de inocênciaSe às vezes dá uma varanda, vence-aO sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadariasFrágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,Sentado numa pedra de memória.Vitorino Nemésio

reincarnation
Alheias e nossas as palavras voam. Bando de borboletas multicores, as palavras voam Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, as palavras voam. Voam as palavras como águias imensas. Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e rectas acima de nós, em redor de nós as palavras voam. E às vezes pousam. Cecília Meirelles

waves of time
Vê como de súbito o céu se fechasobre dunas e barcos,e cada um de nós se volta e fixaos olhos um do outro,e como deles devagar escorrea última luz sobre as areias.Que diremos ainda? Serão palavras,isto que aflora aos lábios?Palavras? este rumor tão leveque ouvimos o dia desprender-se?Palavras, ou luz ainda?Palavras, não. Quem as sabia?Foi apenas lembrança de outra luz.Nem luz seria, apenas outro olhar.Eugénio de Andrade

phantom sailing ship
Come sail your ships around meAnd burn your bridges downWe make a little history, babyEvery time you come around
Come loose your dogs upon meAnd let your hair hang downYou are a little mystery to meEvery time you come around We talk about it all night longWe define our moral groundBut when I crawl into your armsEverything comes tumbling down Come sail your ships around meAnd burn your bridges downWe make a little history, babyEvery time you come around Your face has fallen sad nowFor you know the time is nighWhen I must remove your wingsAnd you, you must try to fly Come sail your ships around meAnd burn your bridges downWe make a little history, babyEvery time you come around Come loose your dogs upon meAnd let your hair hang downYou are a little mystery to meEvery time you come aroundNick Cave

fallen angel
Valsando na neve Chegas numa onda perfumada Tens passos de um anjo de desejo Procuras-te, mas tens nevoeiro na alma Destilas a essência da ambiguidade Esboças profecias corruptas Argumentas com o estranho no teu íntimo Incerta no olhar, convicta na ansiedade Sempre despiste as perguntas Ignoraste todas as probabilidades Apenas planeias a próxima jornada Consegues prometer sem mentir Acreditas mas jamais sentes Traduzes o teu amor em ausência Convocando cicatrizes da imaginação Sentinelas protegem-te das emoções Aceitas que te concedam o mundo Ofereces o frio olhar da lua Desdenhando tanto como desconhecendo Transportas um sorriso letal Um perigo eremita A voz do tempo nada te diz Saboreias o desespero dos outros Acaricias as feridas que causaste E quando partes, partes sem dor. M. Daedalus

reflections
Cais, às vezes, afundasem teu fosso de silêncio,em teu abismo de orgulhosa cólera,e mal conseguesvoltar, trazendo restosdo que achastepelas profunduras da tua existência.Meu amor, o que encontrasem teu poço fechado?Algas, pântanos, rochas?O que vês, de olhos cegos,rancorosa e ferida?Não acharás, amor,no poço em que caiso que na altura guardo para ti:um ramo de jasmins todo orvalhado,um beijo mais profundo que esse abismo.Não me temas, não caiasde novo em teu rancor.Sacode a minha palavra que te veio ferire deixa que ela voe pela janela aberta.Ela voltará a ferir-mesem que tu a dirijas,porque foi carregada com um instante duroe esse instante será desarmado em meu peito.Radiosa me sorrise minha boca fere.Não sou um pastor docecomo em contos de fadas,mas um lenhador que comparte contigoterras, vento e espinhos das montanhas.Dá-me amor, me sorrie me ajuda a ser bom.Não te firas em mim, seria inútil,não me firas a mim porque te feres.Pablo Neruda

the game
Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa, suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento, qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora, algoz do inocente que não sou? Ninguém responde, a vida é pétrea. Carlos Drumond de Andrade

exalted advance
A poesia corrompe os dedos que escrevem. Caem dos braços, como frutos podres, e infectam a terra branca do amanhecer. Leio o verso interrompido pela doença. Reconstituo o final do poema,a evocação do corpo com febre; e abraço a mulher pálida que o poema oculta. «Amo-te», digo-lhe. Ela despe-se na obscuridade da memória, deixando atrás de si uma sombra de antigos lençóis. A luz do meio-dia, ouço, apagou essa imagem; e revela o vermelho dos lábios de onde escorre o riso límpido do amor.
- Tarde em que as janelas batem; e um vento interrompe a conversas dos amantes; e o mar se despe de agosto com as marés vivas que o hábito ignora.Nuno Júdice

discipline
If you've been hiding from love
If you've been hiding from love
I can understand where you're coming from
I can understand where you're coming from
If you've suffered enough
If you've suffered enough
I can understand what you're thinking of
I can see the pain that you're frightened of
And I'm only here
To bring you free love
Let's make it clear
That this is free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
I've been running like you
I've been running like you
Now you understand why I'm running scared
Now you understand why I'm running scared
I've been searching for truth
I've been searching for truth
And I haven't been getting anywhere
No I haven't been getting anywhere
And I'm only here
To bring you free love
Depeche Mode

cleavenger
Vai-te, Poesia! Deixa-me ver a vida exacta e intolerável neste planeta feito de carne humana a chorar onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos com bandeiras de lume nos olhos, para fabricar sonhos carregados de dinamite de lágrimas. Vai-te, Poesia! Não quero cantar. Quero gritar! José Gomes Ferreira