
fractal shell
Às folhas tantas Do livro matemático Um Quociente apaixonou-se Um dia Doidamente Por uma Incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável E viu-a, do Ápice à Base, Uma Figura Ímpar; Olhos rombóides, boca trapezóide, Corpo otogonal, seios esferóides. Fez da sua uma vida Paralela à dela Até que se encontraram No Infinito. "Quem és tu?" indagou ele Com ânsia radical. "Sou a soma dos quadrados dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa." E de falarem descobriram que eram (O que, em aritmética, corresponde A almas irmãs)Primos entre si. E assim se amaram Ao quadrado da velocidade da luz Numa sexta potenciação Traçando Ao sabor do momento E da paixão Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais. Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas E os exegetas do Universo Finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E, enfim, resolveram se casar Constituir um lar. Mais que um lar, Uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissetriz. E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro Sonhando com uma felicidade Integral e diferencial. E se casaram e tiveram uma secante e três cones Muito engraçadinhos E foram felizes Até aquele dia Em que tudo, afinal, Vira monotonia. Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum Freqüentador de Círculos Concêntricos. Viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta, E reduziu-a a um Denominador Comum. Ele, Quociente, percebeu Que com ela não formava mais Um Todo, Uma Unidade. Era o Triângulo, Tanto chamado amoroso. Desse problema ela era a fração Mais ordinária. Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade E tudo que era expúrio passou a ser Moralidade Como, aliás, em qualquer SociedadeMillôr Fernandes

david ho
De que me rio eu?... Eu rio horas e horas só para me esquecer, para me não sentir. Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras; passo a vida febril inquietantemente a rir. Eu rio porque tenho medo, um terror vago de me sentir a sós e de me interrogar; rio pra não ouvir a voz do mar pressago nem a das coisas mudas a chorar. Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim o mistério de tudo o que me cerca e a dor de não saber porque vivo assim.António Patrício
Stick Boy liked Match Girl,He liked her a lot.He liked her cute figure,he thought she was hot.
But could a flame ever burn
for a match and a stick?
It did quite literally;
he burned up quick. Tim Burton in "The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories "

consumed by the flame
Não te quero senão porque te quero, e de querer-te a não te querer chego, e de esperar-te quando não te espero, passa o meu coração do frio ao fogo. Quero-te só porque a ti te quero, Odeio-te sem fim e odiando te rogo, e a medida do meu amor viajante, é não te ver e amar-te, como um cego. Talvez consumirá a luz de Janeiro, seu raio cruel meu coração inteiro, roubando-me a chave do sossego, nesta história só eu me morro, e morrerei de amor porque te quero, porque te quero amor, a sangue e fogo. Pablo Neruda

clock
Metade de tua vida é passada,o ponteiro avança, tua alma estremece,há muito ela gira,procura e não encontra... e hesita aqui?Metade da tua vida é passada:dor e erro de hora em hora,que busca ainda? Por quê?É o que procuro,... a razão de minha busca!Friedrich Wilhelm Nietzsche

contemplations
É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.Milan Kundera- A Insustentável Leveza do Ser
Vincent Malloy is seven years oldHe’s always polite and does what he’s toldFor a boy his age, he’s considerate and niceBut he wants to be just like Vincent Price
He doesn’t mind living with his sister, dog and catsThough he’d rather share a home with spiders and batsThere he could reflect on the horrors he’s inventedAnd wander dark hallways, alone and tormented
Vincent is nice when his aunt comes to see himBut imagines dipping her in wax for his wax museum
He likes to experiment on his dog AbercrombieIn the hopes of creating a horrible zombieSo he and his horrible zombie dogCould go searching for victims in the London fog
His thoughts, though, aren’t only of ghoulish crimesHe likes to paint and read to pass some of the timesWhile other kids read books like Go, Jane, Go!Vincent’s favourite author is Edgar Allen Poe
One night, while reading a gruesome taleHe read a passage that made him turn pale
Such horrible news he could not surviveFor his beautiful wife had been buried alive!He dug out her grave to make sure she was deadUnaware that her grave was his mother’s flower bed(...)Tim Burton in "Vincent"

(...)
His mother sent Vincent off to his roomHe knew he’d been banished to the tower of doomWhere he was sentenced to spend the rest of his lifeAlone with the portrait of his beautiful wife
While alone and insane encased in his tombVincent’s mother burst suddenly into the roomShe said: “If you want to, you can go out and playIt’s sunny outside, and a beautiful day”
Vincent tried to talk, but he just couldn’t speakThe years of isolation had made him quite weakSo he took out some paper and scrawled with a pen:“I am possessed by this house, and can never leave it again”His mother said: “You’re not possessed, and you’re not almost deadThese games that you play are all in your headYou’re not Vincent Price, you’re Vincent MalloyYou’re not tormented or insane, you’re just a young boyYou’re seven years old and you are my sonI want you to get outside and have some real fun.”
Her anger now spent, she walked out through the hallAnd while Vincent backed slowly against the wallThe room started to swell, to shiver and creakHis horrid insanity had reached its peak
He saw Abercrombie, his zombie slaveAnd heard his wife call from beyond the graveShe spoke from her coffin and made ghoulish demandsWhile, through cracking walls, reached skeleton hands
Every horror in his life that had crept through his dreamsSwept his mad laughter to terrified screams!To escape the madness, he reached for the doorBut fell limp and lifeless down on the floor
His voice was soft and very slowAs he quoted The Raven from Edgar Allen Poe:
“and my soul from out that shadowthat lies floating on the floorshall be lifted?NEVERMORE…”Tim Burton in "Vincent"

shout
Sim, foi por mim que gritei. Declamei, Atirei frases em volta. Cego de angústia e de revolta. Foi em meu nome que fiz, A carvão, a sangue, a giz, Sátiras e epigramas nas paredes Que não vi serem necessárias e vós vedes. Foi quando compreendi Que nada me dariam do infinito que pedi, -Que ergui mais alto o meu grito E pedi mais infinito! Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, Eis a razão das épi trági-cómicas empresas Que, sem rumo, Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... O que buscava Era, como qualquer, ter o que desejava. Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. Que só por me ser vedado Sair deste meu ser formal e condenado, Erigi contra os céus o meu imenso Engano De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! Senhor meu Deus em que não creio! Nu a teus pés, abro o meu seio Procurei fugir de mim, Mas sei que sou meu exclusivo fim. Sofro, assim, pelo que sou, Sofro por este chão que aos pés se me pegou, Sofro por não poder fugir. Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! (Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) Senhor dá-me o poder de estar calado, Quieto, maniatado, iluminado. Se os gestos e as palavras que sonhei, Nunca os usei nem usarei, Se nada do que levo a efeito vale, Que eu me não mova! que eu não fale! Ah! também sei que, trabalhando só por mim, Era por um de nós. E assim, Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, Lutava um homem pela humanidade. Mas o meu sonho megalómano é maior Do que a própria imensa dor De compreender como é egoísta A minha máxima conquista... Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, E sobre mim de novo descerá... Sim, descerá da tua mão compadecida, Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. E uma terra sem flor e uma pedra sem nome Saciarão a minha fome. José Régio

twilight
A noite trocou-me os sonhos e as mãos dispersou-me os amigos tenho o coração confundido e a rua é estreita estreita em cada passo as casas engolem-nos sumimo-nos estou num quarto só num quarto só com os sonhos trocados com toda a vida às avessas a arder num quarto só Sou um funcionário apagado um funcionário triste a minha alma não acompanha a minha mão Débito e Crédito Débito e Crédito a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente e debitou-me na minha conta de empregado Sou um funcionário cansado dum dia exemplar Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço Soletro velhas palavras generosas Flor rapariga amigo menino irmão beijo namorada mãe estrela música São as palavras cruzadas do meu sonho palavras soterradas na prisão da minha vida isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só António Ramos Rosa

use once and destroy
[a. Unjustifiable Existence]One two three fourI don't wanna live no moreWell I've got no more reason to liveAnd I've got no more love to giveTonight's the nightI'll paint the town redI'll put another whole through my headUnjustifiable existenceUnjustifiableUnjustifiable existenceUnjustifiable existenceNow I feel the weight of a world on my backI've seen the futureThe future looks blackIt's what I must doI have no reservationsAin't talk 'bout self preservationUnjustifiable existenceUnjustifiableUnjustifiable existenceUnjustifiable existenceGravityCrushing meGravityCrushing meCrushing meCrushing me[b. Acceleration (due to gravity) - 980cm^-2 sec]Yeah I feel something pulling me downForcing me between myself and the groundOf all the nightmares that ever came trueI think that gravity (gravity-gravity) is youUnjustifiable existenceUnjustifiableUnjustifiable existenceUnjustifiable existenceGravityCrushing meGravityCrushing meCrushing meCrushing me[c. Antimatter: Electromechanical Psychedelicosis][d. Requiem for a Souless Man]I've got a problemA problem with hateI can't go on dragging this weightA cold steel hand that won't let goAcid-filled thoughts out of controlI built myself a nice little cageWith bars of anger and a lock of rageI can't help asking Who's got the key?When I know damned well it's meNo I ain't hinting for sympathyI'm used to dealing with apathyThe scars on my wrists may seem like a crimeJust wish me better luck next timeSo what if I died a thousand deathsYou think I'm insane but I have no regretsOne more time won't matter no questionSuicide is self expression.Type O Negative

penance
Ver além dos laços, além da posse Pela insegurança, inerente, Nunca pensei que pudesse... Mas as flechas que lançamos Nos levam adiante de nós E nos faz grandes, humanas Na pura essência do incomum. Dizem que os laços que amarram os homens São mais fortes. Sempre duvidei... Meus laços femininos permaneceram fortes, Todos bem amarrados Por admiração e lealdade. Sobreviveram ao tempo, Aos erros e acertos, À beleza que nos une. Assim, futura amiga, Te espero logo, De braços e coração Abertos... E se isso vier a ser amizade Das mais esplêndidas e verdadeiras Podes estar certa Que sou com quem podes contar, Onde podes amarrar teus sonhos, E viajar descansada. Adriana Sampaio

josé marafona
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incômoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. Relembro, e uma angústia Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver! Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,Na ilusão do espaço e do tempo, Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei; O que só agora vejo que deveria ter feito, O que só agora claramente vejo que deveria ter sido — Isso é que é morto para além de todos os Deuses, Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certo momento Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; Se em certa conversa Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — Se tudo isso tivesse sido assim, Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido, Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo; Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida... Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma Em sistema metafísico nenhum. Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei, Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca Como uma verdade de que não partilho, E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.Álvaro de Campos

elements of death
Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
José de Almada Negreiros

robert gregory
Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura Afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio Afinal o que importa não é ser novo e galante - ele há tanta maneira de compor uma estante Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício Não é verdade rapaz? E amanhã há bola antes de haver cinema madame blanche e parola Que afinal o que importa não é haver gente com fome porque assim como assim ainda há muita gente que come Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo! Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo No riso admirável de quem sabe e gosta ter lavados e muitos dentes brancos à mostra Mário Cesariny

porte de la source
Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.
Pablo Neruda