O amor, quando se revela,Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente Cala: parece esquecer Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse Pra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar...Fernando Pessoa
Hello darkness, my old friend,I've come to talk with you again,Because a vision softly creeping,Left its seeds while I was sleeping,And the vision that was planted in my brainStill remainsWithin the sound of silence.In restless dreams I walked aloneNarrow streets of cobblestone,'Neath the halo of a street lamp,I turned my collar to the cold and dampWhen my eyes were stabbed by the flash ofa neon lightThat split the nightAnd touched the sound of silence.And in the naked light I sawTen thousand people, maybe more.People talking without speaking,People hearing without listening,People writing songs that voices never shareAnd no one dearedDisturb the sound of silence."Fools" said I,"You do not knowSilence like a cancer grows.Hear my words that I might teach you,Take my arms that I might reach you."But my words like silent raindrops fell,And echoedIn the wells of silenceAnd the people bowed and prayedTo the neon god they made.And the sign flashed out its warning,In the words that it was forming.And the signs said, The words of the prophetsare written on the subway wallsAnd tenement halls.And whisper'd in the sounds of silence. Simon & Garfunkel

prisoner
Pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo voo lunar
enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto. Al Berto
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: « Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
« El-Rei D. João Segundo!»
« De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
« Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
« Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
Símbolos. Tudo símbolos Se calhar, tudo é símbolos... Serás tu um símbolo também?
Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa. Pessoas independentes de ti... Olho-as: também serão símbolos? Então todo o mundo é símbolo e magia? Se calhar é... E por que não há de ser?
Símbolos... Estou cansado de pensar... Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham. Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...
Meu Deus! e não sabes... Eu pensava nos símbolos... Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa... "It was very strange, wasn’t it?" "A wfully strange. And how did it end?" "Well, it didn't end. It never does, you know." Sim, you know... Eu sei... Sim eu sei... É o mal dos símbolos, you know. Yes, I know. Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos? Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas? Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...Álvaro de Campos
Uma certa quantidade de gente à procurade gente à procura duma certa quantidadeSoma:uma paisagem extremamente à procurao problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)e o problema do quarto-atelier-aviãoEntretantoe justamente quandojá não eram precisosapareceram os poetas à procurae a querer multiplicar tudo por dezmá raça que eles têmou muito inteligentes ou muito estúpidospois uma e outra coisa eles sãoJesus Aristóteles Platãoabrem o mapa:dói aquidói acoláE resulta que também estes andavam à procuraduma certa quantidade de genteque saía à procura mas por outras bandasbandas que por seu turno também procuravam imensoum jeito certo de andar à procura delesvisto todos buscarem quem andasseincautamente por ali a procurarQue susto se de repente alguém a sério encontrasseque certo se esse alguém fosse um adolescentecomo se é uma nuvem um atelier um astro Mário Cesariny
Diz o meu nomepronuncia-ocomo se as sílabas te queimassem os lábiossopra-o com a suavidadede uma confidênciapara que o escuro apeteçapara que se desatem os teus cabelospara que aconteça
Porque eu cresço para tisou eu dentro de tique bebe a última gotae te conduzo a um lugarsem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhossou gesto e core dentro de time recolho feridoexausto dos combatesem que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigávelprocura o interior e o avessoda aparênciaporque o tempo em que vivomorre de ser onteme é urgente inventaroutra maneira de navegaroutro rumo outro pulsarpara dar esperança aos portosque aguardam pensativos
No húmido centro da noitediz o meu nomecomo se eu te fosse estranhocomo se fosse intrusopara que eu mesmo me desconheçae me sobressaltequando suavementepronunciares o meu nome
Mia Couto