
the promise
O que há em mim é sobretudo cansaçoNão disto nem daquilo,Nem sequer de tudo ou de nada:Cansaço assim mesmo, ele mesmo,Cansaço.A subtileza das sensações inúteis,As paixões violentas por coisa nenhuma,Os amores intensos por o suposto alguém.Essas coisas todas -Essas e o que faz falta nelas eternamente -;Tudo isso faz um cansaço,Este cansaço,Cansaço.Há sem dúvida quem ame o infinito,Há sem dúvida quem deseje o impossível,Há sem dúvida quem não queira nada -Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:Porque eu amo infinitamente o finito,Porque eu desejo impossivelmente o possível,Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,Ou até se não puder ser...E o resultado?Para eles a vida vivida ou sonhada,Para eles o sonho sonhado ou vivido,Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...Para mim só um grande, um profundo,E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,Um supremíssimo cansaço.Íssimo, íssimo. íssimo,Cansaço...Álvaro de Campos

us
Esperança:isto de sonhar bom para dianteeu fi-lo perfeitamente,Para diante de tudo foi bombom de verdadebem feito de sonhopodia segui-lo como realidadeEsperança:isto de sonhar bom para dianteeu sei-o de cor.Até reparo que tenho só esperançanada mais do que esperançapura esperançaesperança verdadeiraque enganae prometee só promete.Esperança:pobre mãe loucaque quer pôr o filho morto de pé?Esperançaúnico que eu tenhonão me deixes sem nadaprometeenganaengano que sejaengananão me deixes sozinhoesperança.José de Almada Negreiros

bergkvist
Por existir me cegam, Me estrangulam, Me julgam, Me condenam, Me esfacelam. Por me sonhar em vez de ser me insultam, Por não dormir me culpam E me dão o silêncio por carrasco E a solidão por cela. Por lhes falar, proíbem-me as palavras, Por lhes doer, censuram-me o desejo E marcam-me o destino a vergastadas Pois não ousam morder o meu corpo de beijos. Passo a passo os encontro no caminho Que os deuses e o sangue me traçaram. E negando-me, bebem do meu vinho E roubam um lugar na minha cama E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram. Com angústia e com lama. Passo a passo os encontro no caminho. Mas eu sigo sozinho! Dono dos ventos que me arremessaram, Senhor dos tempos que me destruíram, Herói dos homens que me derrubaram, Macho das coisas que me possuíram. Andando entre eles invento as passadas Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte E as horas que sei que me estão contadas, Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe. Sou eu que me chamo nas vozes que oiço, Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo, Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço, Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo. Sou eu que passeio as correntes e as asas Por sobre as cidades que vou destruindo, Sou eu o incêndio que lhes devora as casas, O ladrão que entra quando estão dormindo. Sou eu quem de noite lhes perturba o sono, Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta. Sou eu que os enforco numa corda de sonho Que apodrece e cai mal o sol se levanta. Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio, O tédio que pensam, que bebem e comem, O tédio de serem sem nenhum remédio A perfeita imagem do que for um homem. Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo Uma herança de pragas e animais nocivos. Sou eu que morrendo lhes segredo o horror de serem inúteis e ficarem vivos. Ary dos Santos