
a thought made flesh
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Larga a cidade masturbadora, febril, rabo decepado de lagartixa, labirinto cego de toupeiras, raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados, anémicos, cancerosos e arseniados! Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards, esse vaivém cínico de bandidos mudos, esse mexer esponjoso de carne viva, esse ser-lesma nojento e macabro, esse S ziguezague de chicote autofustigante, esse ar expirado e espiritista, esse Inferno de Dante por cantar, esse ruído de sol prostituído, impotente e velho, esse silêncio pneumónico de lua enxovalhada sem vir a lavadeira! Larga a cidade e foge! Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar. Larga a casa, foge dela, larga tudo! Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias! Larga a casa e verás -- vai-se-te o Pesadelo! A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu! Mas larga tudo primeiro, ouviste? Larga tudo!
-- Os outros, os sentimentos, os instintos, e larga-te a ti também, a ti principalmente! Larga tudo e vai para o campo e larga o campo também, larga tudo! -- Põe-te a nascer outra vez! Não queiras ter pai nem mãe, não queiras ter outros nem Inteligência! A Inteligência é o meu cancro: eu sinto-A na cabeça com falta de ar! A Inteligência é a febre da Humanidade e ninguém a sabe regular! E já há inteligência a mais: pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça, vê só o que os olhos virem, cheira os cheiros da Terra come o que a Terra der, bebe dos rios e dos mares, -- põe-te na Natureza! Ouve a Terra, escuta-A. A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te à coca dos que nascem e não os deixes nascer. Vai depois p'la noite nas sombras e rouba a toda a gente a Inteligência e raspa-lhes bem a cabeça por dentro co'as tuas unhas e cacos de garrafas, bem raspado, sem deixar nada, e vai depois depressa, muito depressa, sem que o sol te veja, deita tudo no mar onde haja tubarões! Larga tudo e a ti também! ...José de Almada Negreiros