segunda-feira, janeiro 31, 2005


fake a lie

Empresta-me as tuas asas

Sei que lá atrás
eu te pedi para não pensar adiante.
Pra ser exacta, não foi pedido,
muito mais, imposição.
Sei que te proibi o futuro,
escondida atrás de um muro
de incerteza e confusão.
Sei que os meus medos
foram tesouras nas tuas asas.
Além das tuas asas
criaram uma cerca de espinhos,
furaram teus olhos,
fecharam caminhos.
Mas antes pedi mais:
pedi que fizesses de conta.
Sei disso. De tudo.
Mea culpa, mea máxima culpa.
Agora quem voa sou eu.
Será que me emprestas
as asas que fizestes de conta
que me deixavas cortar?

Débora Cristina Denadai

domingo, janeiro 30, 2005


offering

Se queres saber de mim

Se queres saber de mim
não olhes os meus retratos
julgando saber-me assim.
Se queres saber quem sou
não busques nas minhas respostas
quando perguntas onde vou.
Se queres saber quem é
esta que te sorri
não olhes para a mulher.
Que não me saberás pelo sorriso,
não me conhecerás pelas respostas,
meus retratos são imprecisos,
a cada dia traço novas rotas.
Se queres porventura, um dia,
entender deste coração,
olha meus olhos primeiro:
é neles que mora a poesia
que me explica dia após dia
e me mostra por inteiro.
Se queres saber-me de facto,
recomendo-te menos cuidado,
muito carinho, pouca fala,
mais riso e tacto, muito tacto.

Débora Cristina Denadai

sábado, janeiro 29, 2005


vicdaen

A cerimonia da insistencia

Não consigo perdoar nem a ti nem a vida
Por negarem-me a oportunidade
De descobrir em teu corpo
Todo o mistério do universo...

Negar a realização do amor que nos bate à porta

É crime de lesa-natureza...
E tu serás cobrada por essa recusa
Quando perceberes que as efêmeras paixões
Que hoje te animam o ser
São apenas pálidos reflexos
Do que podias Ter e recusaste.

Por causa de tua negativa
As estrelas se quedaram silentes;
A lua ficou triste, encabulada;
O sol amanheceu constrangido.

Toda a natureza sentiu-se negada
Pela simples volição de uma mortal!
Que poder é esse que o Homem tem
De negar o Ser, de recusar-se a criar?

Que poder é esse que te foi dado
De negares a realização do amor?
Já pensaste que tu poderás querer (e não Ter)
justamente o amor que te foi oferecido
e que tu simplesmente recusaste?

A tua recusa constrangeu todo o Olimpo
Aliás, dos deuses gregos aos romanos
De Eros a Afrodite...
Deixaste desconcertado o Cupido
Profanaste o altar de Vênus.

Mas podes crer que Zeus
Que jamais permitiu tanta soberba
De uma simples mortal (embora linda)
Vai cunhar em etéreas plagas
A sentença que encimará tua imagem de mulher
E a de todas iguais a ti:
"Aqui jaz, neste corpo de mulher
o amor estéril que não se pode realizar..."

E esta será tua sina: Ensinar a todas as mulheres
Que ao amor não se pode nada negar.

Nelson Castelo Branco Eulálio

david ho

Tango de Nancy

Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gin
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima, por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais

Edu Lobo

sexta-feira, janeiro 21, 2005


undertheblack

O elo da vida

Nossa vida é um elo em que tudo e todos tem a ver
Não quero agora que vivas novamente
Acabaste de deixar os vermes te comerem
Tu és mesquinho nos teus actos e sentimentos
E eu tive esperança
Tu não mudaste, e não percebi
Teus defeitos novamente me magoaram
Tomara que um dia tu não termines sozinho
A vida é um elo e temos que nos firmarmos
E tu não percebeste
Tu não quiseste voltar atrás
E eu não quis que o tempo tivesse passado
Acabou
Hoje eu sou madura o suficiente
para saber que te conheço muito bem
Pena, que pena
Gostaria de não sentir-me assim
Tão desorientada
Tu eras meu tudo e agora tu te foste
Por que eu tenho que agarrar-me em pequenas
oportunidades?
Tão subtis
Não venhas de novo, não
Não percas teu tempo com um passado,
magoado
Eu já não sou feliz e não tentes mais nada
Nem tentes me possuir, pois mesmo assim acabou
É o fim dos tempos, tempos perdidos
Tu não me percebeste
E eu não me importei
Hoje, talvez, eu não seja a mesma
E agora tu já não soubeste aproveitar
Ruim é que as palavras não voltem,
pois aí eu não precisaria repetir tudo novamente
Meu amor foi-se com a brisa
que um dia me consolou.
Nem tentes me seduzir
Não,o amor não é assim
Doeu demais mas,
acabou.

Fernanda Lohn Ramos

quinta-feira, janeiro 20, 2005


AeternaSaltatus

Escuridão (vai por mim)

Não estou com grande disposição
p'ra outra enorme discussão
tu dizes que agora é de vez
fico a pensar nos porquês
nós ambos temos opiniões
fraquezas nos corações
as lágrimas cheias de sal
não lavam o nosso mal

e eu só quero ver-te rir feliz
dar cambalhotas no lençol
mas torces o nariz e lá se vai o sol

Dizes vermelho, respondo azul
se vou para norte, vais para sul
mas tenho de te convencer
que, às vezes, também posso...
ter razão!

também mereço ter razão
vai por mim
sou capaz de te mostrar a luz
e depois regressamos os dois
à escuridão

Se eu telefono, estás a falar
ou pensas que é p'ra resmungar
mas quando queres saber de mim
transformas-te em querubim
quero ir para a cama e tu queres sair
se quero beijos, queres dormir
se te apetece conversar
estou numa de meditar

e tu só queres ver-me rir feliz
dar cambalhotas no lençol
mas torço o meu nariz e lá se vai o sol

Dizes que sou chato e rezingão
se digo sim, tu dizes não
como é que te vou convencer
que, às vezes, também podes...
ter razão!

também mereces ter razão
vai por mim
és capaz de me mostrar a luz
e depois regressamos os dois
à escuridão

Atenção!
os dois podemos ter razão
vai por mim
há momentos em que se faz luz
e depois regressamos os dois
à escuridão.

Jorge Palma

quinta-feira, janeiro 06, 2005


block

Solstício

Tenho muito medo
De morrer de medo
De ficar sozinho
De morar sozinho
De perder carinho
De quem não me quer

Medo de escuro
De cair no muro
Trauma de tucano
De ser infeliz
E quem tanto quis
Nunca me querer

Medo da vergonha
Que é sentir medo
Perder o afecto
De tantos amigos
De tantos amores
Medo de gozar
De ficar doente
De sonhar tão alto
E se espatifar

Medo que ninguem
Leia esse poema
Nem um fidebeque
O ego a chorar
E uma cascata
De medo, descendo
Na serra de medo
Que fica acolá

Américo Gomes